(11) 3571.0757
(11) 2359.0300
(11) 98257.7752



Os limites da honestidade

HonestidadeO que você pensa da maioria dos políticos brasileiros? Você acredita na honestidade deles?

Se a sua resposta foi não, você tem a mesma percepção de 80% dos brasileiros.

Mas, e se estivesse no Congresso Nacional, você seria como os atuais políticos corruptos, aproveitando-se do poder e da influência para obter benefícios próprios às custas da saúde e da educação do país ou teria uma atitude diferente?

Você acredita que conseguiria se manter imune ao sistema que estimula corruptos e corruptores ou acabaria se “desviando do caminho”?

Essa é uma questão complexa!

Porque, apesar de nosso desejo pessoal da apostarmos em nossa própria honestidade, segundo a psicologia social, a resposta a essa pergunta pode ser bem mais difícil do que um rápido sim ou não…

Estudos sobre a “trapaça” mostram que existe um desejo natural nas pessoas de obter ganhos às custas de desvios das regras e padrões éticos.

A relação entre fazer o certo e trapacear é uma constante “queda de braços” em nosso sistema decisório.

Segundo o psicólogo americano Dan Ariely, existem 2 forças atuando de forma antagônica dentro de nós: a vontade de nos olharmos no espelho e não sentirmos vergonha do que fazemos versus o nosso desejo de obter o chamado “ganho da trapaça”.

E há um ponto específico, para cada pessoa, onde cada um de nós sente que pode se beneficiar trapaceando apenas um pouco, contanto que essa trapaça não mude a impressão que temos sobre nós mesmos. Isso é chamado de Fator Pessoal de Enganação.

Esse fator é o limite daquilo que aceitamos fazer de errado, segundo os nossos princípios morais.

E, ao contrário do que gostaríamos, esse limite não é algo estanque ou imutável. Mas, ao contrário, pode se contrair ou se distender de acordo com as circunstâncias e o ambiente social.

Em um estudo clássico, o psicólogo Dan Ariely chamava voluntários para responder 20 problemas simples, que as pessoas poderiam resolver com facilidade. Entretanto, ele não lhes dava tempo suficiente para a tarefa. Ao final de 5 minutos, dizia “ok, podem parar, me entreguem as folhas, darei 1 dólar por questão correta.

Na média, as pessoas recebiam 4 dólares, correspondentes a 4 questões corretas.

Em outro grupo de voluntários, ele induzia a trapaça…

As mesmas questões e os mesmos 5 minutos. Agora, porém, ao final, pedia às pessoas que rasgassem as folhas em um triturador de papel. Apenas deveriam informar o total de respostas certas, pois pagaria o mesmo valor por acerto.

A média de acertos, curiosamente, passou para 7 no momento em que não poderia haver conferência das respostas…

A partir desse e de outros experimentos correlatos, percebeu-se que não eram poucas pessoas trapaceando muito e sim muitas pessoas trapaceando um pouco.

Em outro conjunto de estudos, onde as pessoas tinham a oportunidade de furtar pequenas quantidades de dinheiro x furtar produtos de baixo valor, percebeu-se que quando a trapaça não envolve diretamente o dinheiro, as pessoas trapaceiam mais.

Por isso, para a maioria das pessoas, roubar um lápis do escritório é muito mais aceitável do que roubar moedas de uma caixinha de dinheiro. Isso acontece porque os sentimentos gerados são muito diferentes.

Mas, essas conclusões ainda não eram suficientes para se medir o impacto do ambiente e do grupo social sobre o Fator Pessoal de Enganação.

Foi feito então um novo experimento com jovens universitários.

As pessoas recebiam um envelope com um “pagamento adiantado” para as respostas que dariam certo. Ao final, deveriam devolver a quantidade de dinheiro referente àquilo que não conseguiram acertar.

Entretanto, nesse experimento foi colocado um ator vestindo a camiseta de uma universidade e que, após 30 segundos se levantava e dizia: “eu resolvi tudo, o que faço agora”?

O pesquisador então respondia: “se você respondeu tudo, é só isso. Pode pegar o seu dinheiro e ir para casa”.

Todos ali sabiam que era impossível responder às perguntas em 30 segundos e que, portanto, aquela pessoa estava trapaceando. Mas, qual seria o comportamento das outras pessoas? Também trapaceariam e obteriam o ganho fácil?

Elas trapaceariam mais ou trapaceariam menos?

A resposta foi incrível: O aumento ou diminuição da trapaça dependia da camiseta que o ator estivesse usando…

Todos os participantes do experimento eram de uma mesma universidade. Se o ator estivesse usando a camiseta da mesma universidade, a trapaça no grupo aumentava significativamente.

Mas, se estivesse usando uma camiseta da universidade concorrente, a trapaça diminuía.

Vale lembrar que era evidente que as trapaças não seriam percebidas e muito menos punidas, mas o que estava em jogo era a influência social sobre o fator pessoal de enganação das pessoas.

Ao conclusão de que a trapaça aumentava ou diminuía se o trapaceiro fosse identificado como parte ou não do grupo nos mostra que se vemos alguém do nosso grupo trapaceando, sentimos que é mais apropriado, como grupo, fazer o mesmo. Porém, se a pessoa que trapaceia é do “outro grupo” nossa honestidade aumenta.

As principais conclusões desse conjunto de pesquisas de Dan Ariely mostraram que:

  1. Muitas pessoas são capazes de trapacear,
  2. Elas trapaceiam somente um pouco,
  3. Quando a trapaça não envolve diretamente o dinheiro, as pessoas trapaceiam mais,
  4. Quando vemos a trapaça acontecendo naturalmente no grupo onde fazemos parte, a chance de trapacear aumenta.

Então, se queremos construir uma nação mais honesta precisamos criar um modelo social, seja na educação das crianças, seja nos valores das empresas, que reforcem alguns princípios essenciais:

– Trapacear pouco é tão grave quanto trapacear muito;

– Roubar o lápis do escritório ou o chocolate no supermercado é tão grave quanto roubar o dinheiro da carteira de alguém;

– Trapaça é inaceitável para qualquer pessoa, independente do grau de proximidade ou afetividade que essa pessoa tenha conosco.

Um carinhoso abraço!

Clique aqui e deixe o seu comentário.

Flávio Lettieri é consultor empresarial e Sócio Diretor da Somma Consultoria. É especialista em coaching, empreendedorismo e desenvolvimento de atividades vivenciais. Visite nosso site www.sommaonline.com.br 04